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Ebony narra trajetória de cura e ascensão e firma a potência de sua arte com versão (De Luxo) do elogiado KM2

today6 de abril de 2026

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“Eu tenho sangue ruim, eu resolvo sozinha. Tenho a cor do pecado, do pé na cozinha”. É com esses versos que Ebony abre a edição de KM2 (De Luxo), versão completa, com mais conceito e representatividade, do álbum lançado em maio do ano passado. A faixa que já indica as questões raciais que acompanham todo o trabalho da cantora, e que aparecem ainda mais latentes nesse novo projeto, é “Sangue Ruim”, que segue em rimas que não têm medo de tocar nas feridas mais profundas. “Eu sou Deus. Mas, se eu morro, ninguém sente minha falta”, continua a letra da abertura. 

Sua escolha para a faixa 1, além de ditar um dos principais temas que norteiam o álbum, também simboliza um novo momento da artista: com mais segurança na forma que enxerga sua arte e coragem para expor até o que lhe é mais íntimo. “Eu sempre escrevi poesias, haikaiss, tragédias, roteiros de filmes e sempre senti muita vergonha de mostrá-los. Esse poema foi a primeira coisa que senti coragem o suficiente”, entrega.

O impulso, segundo ela, veio como resultado do momento em que o mundo está passando, com casos de feminicídio, especialmente contra mulheres negras, atingindo números cada vez mais alarmantes. As palavras, então, aparecem como uma estratégia de guerra. “Pensar sobre a mulheridade, sobre ser negra, sobre movimentar o mundo silenciosamente nas costas quando todo mundo pensa o pior de você é incrível! Porque eu sei que isso é combustível para todas nós. Acho que a sociedade não sabe o tamanho da capacidade que as pessoas excluídas têm para transformar isso em cura”, reflete.

Com sete novas faixas, incluindo as da primeira versão de KM2 e “Dona de Casa”, single divulgado previamente em dezembro do ano passado, (De Luxo) — nome escolhido por privilegiar o significado e a clareza em português, em vez do estrangeirismo “deluxe” — mergulha fundo nas referências que fazem parte da trajetória de Ebony. Musicalmente, segue a estética já apresentada pela artista desde o último trabalho, passando por gêneros como funk, bass, drum, MPB e rap.

Depois de “Sangue ruim”, a segunda novidade aparece na faixa 4, depois das já conhecidas “KM2” e “Parte do Mundo”. É nesse momento que a figura de Soujourner Truth entra em cena para trazer a reflexão que a confrontou e mudou sua trajetória em 1851: “E eu não sou uma mulher?”. Sem música, apenas voz, Ebony usa o respiro entre a terceira música e a quinta — “Gin com Suco de Laranja”, talvez a mais romântica e sensual do álbum — para contar brevemente sobre a abolicionista e ativista que entrou para a história ao vencer uma ação judicial e recuperar o filho vendido ilegalmente.

A pesquisa e estudo de mulheres negras como ela sempre fizeram parte da trajetória de Ebony, especialmente pela busca de referências. Adotada por pais brancos, decidiu recorrer a figuras que gerassem identificação desde que a frase “Eu sou uma mulher negra” passou a fazer sentido em sua vida. Na ativista que nomeia a quarta faixa, viu um espelho e o incentivo para reivindicar um lugar que até então lhe era negado: “Faço rap há 10 anos e, em vários momentos, senti que poderia ser qualquer coisa, menos a mulher inteligente que sou. Sojourner Truth pareceu estar questionando o óbvio para a época dela, e esse lugar de reivindicação me pega muito”, analisa.

Na sequência do álbum, antes de passar por “Hong He” e a esperada “Dona de Casa” — que aparece primeiro como rascunho no modo Rough para só depois ser apresentada na versão mixada —, “Rimo em qualquer batida” (faixa 6) vem de uma reflexão bem mais profunda do que os versos cantados junto a um coro de crianças deixam indicar. Ao se depararem com a rima em ritmo de canto militar, fãs mais atentos talvez identifiquem desde o primeiro play o que a cantora pretende com aqueles poucos segundos. “Essa é uma alegoria que eu tenho feito bastante no meu show e acho que ainda vou fazer muito ao longo da minha carreira. É sobre como acho o mundo militar, desses homens que se levam a sério, parecido com o mundo das crianças. Para mim, é sempre muito bobo. Gosto de pensar que, para ganhar do bicho papão, a gente tem que conseguir rir dele”, provoca.

Com “Dona de Casa” nas faixas 8 e 9, as novidades voltam a aparecer na 17 e 18 — com “Baddie Radio” e “Chefe”, respectivamente. Na primeira, Ebony ocupa a persona de uma locutora de rádio para preparar os ouvintes para a finalização de uma história que começou com os versos doloridos de “Sangue Ruim” e se conclui com o final feliz de quem chegou ao topo. “Você está ouvindo em tempo real a ascensão de uma jovem negra”, diz a locução antes de cortar rapidamente para uma notícia.

Quem ouviu KM2 e sua versão completa até aqui talvez se prepare para o anúncio de mais alguma tragédia com jovens negros na Baixada Fluminense, região do Rio de Janeiro de onde a artista vem. Mas, dessa vez, bem diferente do que acontecia quando alguma gravação de jornal aparecia entre as músicas, é a própria Ebony quem anuncia a sua vitória. “Manifestantes estão ocupando as ruas em protesto: eles estão revoltados com a rapper Ebony que, quando perguntada como se percebia no mundo, respondeu: preta, foda, quente”, diz pouco antes de anunciar “Chefe”. Na última faixa do álbum, a letra é repleta de versos cheios de orgulho e autoestima. Versos de quem entendeu o próprio valor como mulher e como artista. “Eu me acho, me achei, ainda tô me achando. Eles não gostam porque ainda ‘tão se procurando”, canta.

Milena Pinto de Oliveira, a Ebony, se achou na poesia das palavras e nos palcos. Com KM2 (De Luxo), o convite é para que se juntem a ela em uma jornada musical de imersão e representatividade. “Gostaria muito que as mulheres negras se vissem nisso — se não nas músicas, nos gestos e na minha vontade de deixar tudo impecável”.

Tão impecável quanto uma obra de arte, como a capa, feita pela artista plástica Hester Landim, retrata. Com uma paleta mais fria, verdes e tons claros, a releitura do projeto visual se propôs a criar um clima quase idealizado, mas com uma tensão silenciosa no ar. “A obra constrói um cenário de harmonia, onde relações afetivas e um espaço religioso sugerem pertencimento e comunidade. No entanto, a presença isolada da ‘Ebony criança’ rompe essa ideia”, explica. Outro detalhe foi a tinta vermelha: na capa original, ela representa uma figura humana, enquanto, aqui, assume forma de pegadas. “Elas marcam um percurso que parece invisível aos outros. E a cor vermelha, a mais forte que a pintura tem, traz à tona questões de memória, dor e traumas”, conceitua.

Para a Ebony, sua versão adulta pincelando o quadro com ela ainda criança também retrata imageticamente o que o novo KM2 simboliza. “Eu brinco dizendo que o primeiro álbum foi feito pela Milena, mas a Ebony fez o (De Luxo). Porque definitivamente foi polido; parece, de fato, uma obra finalizada agora”, comemora.

Escrito por Luisa Leão


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