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A jornada de Ken Kaneki vai muito além de ser apenas uma história sobre monstros. Em Tokyo Ghoul, o protagonista enfrenta um processo de perda que pode ser interpretado como uma representação das cinco fases do luto.
Lançado no ano de 2011 por Sui Ishida, Tokyo Ghoul rapidamente conquistou fãs ao redor do mundo ao combinar ação, terror psicológico, reflexões sobre identidade, pertencimento e trauma. Embora a obra seja conhecida pelos confrontos entre humanos e ghouls, um de seus aspectos mais marcantes é a transformação emocional vivida por seu protagonista, Ken Kaneki.

A trama acompanha Ken Kaneki, um jovem universitário tímido que leva uma vida comum até conhecer Rize Kamishiro. O encontro, que parecia o início de um romance, termina de forma trágica quando Rize revela ser uma ghoul, criatura humanoide que sobrevive de carne humana, e tenta devorá-lo.
Durante o ataque, um acidente faz com que ambos sejam atingidos por uma estrutura metálica. Para salvar a vida de Kaneki, médicos transplantam para ele alguns dos órgãos de Rize, assim o transformando em um híbrido: metade humano, metade ghoul.
A partir desse momento, Kaneki passa a viver um intenso conflito interno. Incapaz de aceitar sua nova condição, ele precisa aprender a sobreviver em um mundo onde já não pertence completamente a nenhum dos dois lados.

Na obra, os ghouls são seres humanoides que precisam consumir carne humana para sobreviver. Apesar de possuírem aparência semelhante à de pessoas comuns, eles apresentam características físicas e habilidades muito superiores às dos humanos.
A inspiração para essas criaturas vem do folclore árabe, onde os ghouls são descritos como monstros que habitavam cemitérios e lugares desertos. Com o tempo, a cultura pop adaptou essa figura para representar criaturas antropomórficas que se alimentam de humanos.
Sem saber como lidar com sua transformação, Kaneki encontra abrigo na Anteiku, uma cafeteria administrada por ghouls. É ali que começa a compreender que o mundo não é dividido apenas entre monstros e humanos, mas por indivíduos tentando sobreviver.
Mais do que uma história de sobrevivência, a trajetória de Kaneki pode ser interpretada como uma metáfora para as cinco fases do luto propostas pela psiquiatra suiça Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004): negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

A primeira reação de Kaneki é rejeitar completamente sua nova realidade, ele se recusa a consumir carne humana, insiste em preservar sua antiga identidade e tenta viver como se nada tivesse mudado. Toda essa resistência representa sua dificuldade em aceitar a perda da vida que conhecia, ao mesmo tempo, que reprime seus traumas da infância e evita confrontar as marcas deixadas pelo abandono de sua mãe.

A fase da raiva ganha força após a brutal tortura sofrida por Kaneki nas mãos de Yamori, também conhecido como Jason no anime, depois desse episódio, seu cabelo embranquece e sua personalidade muda drasticamente, o jovem gentil e inseguro se transforma em alguém frio, violento e disposto a fazer qualquer coisa para proteger as pessoas que ama. A violência se torna uma resposta ao sofrimento acumulado

Essa fase é representada por Haise Sasaki, identidade assumida por Kaneki após perder suas memórias. Nesse período, ele abandona seu passado e passa a trabalhar para a CCG, organização responsável por caçar ghouls, a nova vida representa uma tentativa inconsciente de escapar da dor e culpa, criando uma realidade onde não precisa enfrentar quem ele realmente é. Mais do que esquecer o passado, Haise simboliza um acordo desesperado com a própria mente para evitar o sofrimento.

Representado pelo ceifador negro, essa fase é um dos momentos mais sombrios da narrativa e evidencia o peso psicológico carregado pelo personagem. Após sucessivas perdas e traumas, Kaneki passa a agir de forma apática, consumido pelo vazio, culpa e desesperança, sua postura torna-se autodestrutiva, como se a morte fosse a única forma de colocar fim ao sofrimento.

A última fase acontece quando Kaneki finalmente deixa de separar seus dois lados, e aceita que é, ao mesmo tempo, humano e ghoul, ele também aceita seus traumas, erros e cicatrizes e em vez de negar sua identidade, passa a utilizá-la para buscar uma convivência mais pacífica entre os dois mundos.
Embora Tokyo Ghoul seja lembrado por suas cenas de combate e pelo universo sombrio a obra também oferece uma profunda reflexão sobre identidade, trauma e amadurecimento. A história de Kaneki mostra que o luto não está ligado apenas à perda de alguém querido, pois em muitos momentos da vida, também precisamos lidar com a perda da pessoa que um dia fomos.
Ao longo de sua trajetória, o protagonista aprende que não é possível apagar as próprias cicatrizes, o caminho para seguir em frente está justamente em aceitá-las como parte da própria história.
Escrito por Bruna Matins
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