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UpdateFM
today29 de setembro de 2026
Em seu oitavo disco, a cantora atravessa pop, R&B, dance, trap e experimentações eletrônicas para refletir sobre fama, desejo, trabalho e a liberdade de finalmente definir as próprias regras.
Existe uma certa ironia em Tinashe chamar seu oitavo álbum de “Popstar”. Afinal, poucas artistas passaram tanto tempo sendo questionadas sobre o lugar que deveriam ocupar dentro do pop quanto ela.
Depois de anos construindo uma carreira entre o R&B, a música eletrônica, o dance, o experimental e uma independência criativa que se tornou parte fundamental de sua identidade, Tinashe finalmente coloca “popstar” no centro da própria narrativa. Mas não parece interessada em simplesmente vestir o figurino tradicional de uma.
Lançado em 25 de setembro, Popstar chega com 16 faixas e funciona menos como uma tentativa de seguir uma fórmula do que como uma espécie de investigação sobre o próprio conceito de estrelato. O álbum é o sucessor de Quantum Baby, de 2024, e também representa seu retorno a um lançamento por uma grande gravadora depois de oito anos.
E talvez seja justamente por isso que o disco consiga soar tão Tinashe.
Antes mesmo do lançamento, Tinashe deixou claro que não queria transformar Popstar em um álbum preso a uma identidade sonora específica.
Em entrevista repercutida pela Billboard, a cantora explicou que sua principal preocupação era criar um trabalho coeso que representasse as diferentes partes de quem ela é. A segunda regra era, curiosamente, não ter regras. Dance, hip-hop, pop e R&B poderiam coexistir no mesmo projeto — desde que fizessem sentido dentro daquele universo.
O resultado é um álbum que muda de pele constantemente.
Há o eletrônico cheio de texturas de “Sunglasses”, produzida com participação de Arca; a energia dançante de “Melatonin”; o trap de “Crash Out”; a balada R&B “I’d Rather Be Alone”; e até uma aproximação com o country em “Nobody Wants to Dance Anymore”. No encerramento, “Heavy Weight” reduz tudo ao essencial e coloca Tinashe acompanhada pelo violão.
É uma variedade que poderia facilmente transformar o disco em uma coleção de ideias desconectadas. Mas Popstar parece interessado justamente em mostrar que essas mudanças não precisam significar falta de identidade.
A identidade está na própria Tinashe.
A história recente ajuda a entender por que Popstar chega em um momento tão particular.
Em 2024, “Nasty”, faixa de Quantum Baby, ganhou uma nova vida nas redes sociais e levou Tinashe de volta à Billboard Hot 100, chegando ao número 61 — sua melhor posição na parada desde “2 On”, de 2014. Mais tarde, “No Broke Boys”, também presente em Quantum Baby, ganhou força com um remix de Disco Lines e alcançou o número 36.
De certa forma, o sucesso de “Nasty” recolocou Tinashe em uma conversa da qual ela nunca havia realmente saído.
Só que agora existe uma diferença: ela sabe exatamente o que acontece quando o público finalmente olha para ela.
Em vez de correr para repetir a fórmula, Popstar parece brincar com as expectativas criadas ao redor desse momento.
“Too Easy”, primeiro single do álbum, já apresentava essa postura. A faixa transforma a própria facilidade de Tinashe em produzir algo imediatamente pop em uma espécie de provocação. Depois veio “Crash Out”, mais agressiva e influenciada pelo crunk, acompanhada por uma campanha visual em que a cantora aparece destruindo um carro com uma marreta. A ideia, segundo Tinashe, era criar uma ação que parecesse tão absurda que as pessoas que não acompanhassem seu trabalho parassem para pensar: “que diabos está acontecendo?”.
É quase como se ela tivesse entendido que, em 2026, ser uma estrela pop também significa saber brincar com a própria expectativa de ser uma.
A faixa-título talvez seja onde essa discussão fica mais evidente.
Em sua análise, o Pitchfork chamou “Popstar” de uma espécie de prequel semiautobiográfico da própria trajetória de Tinashe, misturando imagens de luxo, ambição e referências à fantasia hollywoodiana com uma produção que recupera elementos de diferentes momentos do pop. A publicação também destacou a agilidade rítmica da cantora e classificou a faixa como Best New Track.
Mas o álbum não fica apenas na fantasia.
Depois de construir essa imagem de estrelato, Tinashe chega a “Empty Stadium”, uma das faixas mais introspectivas do projeto. O contraste é importante: existe a popstar cercada por câmeras, roupas, coreografia e expectativas, mas também existe a possibilidade de estar diante de um estádio vazio.
É aí que Popstar deixa de ser apenas uma coleção de músicas sobre fama e começa a revelar algo mais pessoal.
A própria Billboard destacou esse movimento ao apontar como o disco alterna entre a fantasia do estrelato e momentos de vulnerabilidade, enquanto o NME leu o álbum como um trabalho em que Tinashe parece menos preocupada em conquistar aprovação e mais segura sobre quem é como artista.
Talvez a maior força de Popstar esteja justamente na recusa de Tinashe em escolher um único caminho.
Ela pode fazer uma música sensual, depois uma faixa eletrônica, depois voltar para o R&B e terminar o álbum com uma canção acústica. Pode brincar com referências nostálgicas sem transformar o disco em uma viagem puramente retrô. Pode fazer música para a pista e, poucos minutos depois, falar sobre solidão, cansaço e as cobranças que acompanham uma carreira construída durante décadas.
O Pitchfork descreveu o álbum como uma recriação e uma reimaginação de diferentes blockbusters pop da última década, identificando ecos de nomes e movimentos que vão de Missy Elliott e Timbaland a Metro Boomin e Mike Will Made-It.
Mas talvez seja mais interessante pensar em Popstar não como uma tentativa de reproduzir o passado, e sim como uma artista olhando para tudo que o pop já fez e perguntando o que ainda pode ser feito com essas referências.
Tinashe conhece muito bem esse jogo.
Ela começou ainda adolescente, passou pelo grupo The Stunners, abriu shows para Justin Bieber e chegou ao mainstream com “2 On”, antes de atravessar a experiência de uma grande gravadora e posteriormente construir uma fase independente com projetos como Songs for You, 333 e BB/ANG3L.
Essa trajetória aparece no álbum não como uma retrospectiva tradicional, mas como repertório.
No fim, talvez Popstar seja menos sobre Tinashe finalmente se tornando uma popstar e mais sobre ela perguntando quem decidiu o que uma popstar deveria ser em primeiro lugar.
A pergunta é especialmente interessante vindo de uma artista negra que passou anos circulando por diferentes espaços do pop sem caber completamente em nenhum deles. O próprio título parece carregar essa tensão: é uma palavra simples, quase óbvia, mas que Tinashe transforma em conceito.
Ela não precisa escolher entre ser R&B ou pop. Entre experimental e comercial. Entre sensualidade e introspecção. Entre a artista independente e a estrela de uma grande gravadora.
Popstar existe justamente nesse espaço entre todas essas possibilidades.
E talvez essa seja a melhor definição para a fase atual de Tinashe: não a de alguém finalmente tentando se encaixar na ideia de uma popstar, mas a de uma artista que passou tempo suficiente dentro da indústria para decidir que pode desmontar essa ideia e reconstruí-la do seu jeito.
Escrito por Raquel Castro
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