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UpdateFM
today31 de outubro de 2026
Em uma industria onde se tem muita pressão estética, comportamental e muitas vezes é colocado uma expectativa enorme em cima das pessoas, o grupo sul-coreano BTS, transformou sua própria experiência e vulnerabilidade em musica onde muitos fãs encontram refujo até os dias de hoje.

No ano de 2013, a industria do kpop era um cenário com amplas produções extremamente impecáveis, narrativas românticas e uma projeção de perfeição inalcansável.
Falar abertamente sobre as inseguranças, incertezas e frustações em geral, ou até mesmo o peso esmagador do futuro era um tabu, mas isso não se restringia somente a industria da música, mas sim na própria sociedade coreana, que como sabemos a competitividade acadêmica e profissional impõe metas severas ao jovens e o BTS já chegou com o pé na porta.
Em vez de se adaptarem a fórmula quadradinha e certinha, esses sete garotos optaram por um grito de guerra contra todo esse sistema, logo na estreia eles fizeram barulho com o single No More Dream, onde questionavam e confrontavam as imposições que eram colocadas aos jovens na época, dando a eles um falta de espaço para serem o que queriam e que tivessem seus próprios desejos.
Ao perguntarem diremente, ”Qual é o seu sonho?” e validar os jovens que não tinham nenhum, o grupo tirou um peso das costas de muitos adolescente que se sentiam perdidos em meio a pressão por ”ser alguém” na vida.
“Qual é o seu sonho? É só isso que o seu estudo produz? […] Vá em frente, qual é o seu sonho? Rebele-se contra essa sociedade de adultos, o futuro já está garantido de qualquer forma.”
— BTS, “No More Dream”
E quem acha que a critica acabou lá em 2013 está muito enganado, pois no ano de 2014, o grupo lançou Tomorrow, que pertence ao EP Skool Luv Affair.
A faixa produzida pelo Yoongi, quando ainda era um trainee, a música aborda a sensação sufocante de paralisia e a ansiedade daquela sensação de que todo o esforço não leva a lugar nenhum. Com versos como ”O amanhã que tanto esperamos se torna o ontem no momento em que abre os olhos” e “A vida não é sobre viver, é sobre resistir”, ao invés de apenas entregar um otimismo vazio, os meninos entregaram uma empatia realista e mostrou a exaustão de alguém que vive no piloto automático.
“Porque a alvorada, logo antes do nascer do sol, é o momento mais escuro. Mesmo no futuro distante, nunca se esqueça do você de agora.”
— BTS, “Tomorrow”
Conforme o grupo foi tendo a sua ascensão global, a narrativa ao redor dos meninos passou a focar em conquistas numéricas, premios e shows lotados, até se tornarem artistas estádios, contudo, ao invés de mascararem as dores do glamur que estavam vivendo, os integrantes usaram a vulnerabilidade para abordar os maiores tabus da industria do kpop, a solidão, a exaustão emocional e as doenças mentais que andam coladas com o sucesso.
O ápice de toda essa honestidade, foi com o alter ego do Yoongi, o August D, pois no ano de 2016, ele lançou a mixtape solo, The Last, onde ele entregou um dos relatos mais vividos e corajosos sobre saúde mental já registrado na história do Kpop. A musica rompe com todas as convenções, ao relatar explicitamente a sua batalha contra depressão, o Transtorno Cumpulsivo Obsessivo e fobia social.
Ele não romantiza a dor e nem máscara a severidade de suas crises, citando abertamente episódeos de isolamento, pensamentos autodestrutivos e a busca por acompanhemeto psiquiátrico. Ele relatou o momento em que deitou-se no chão do banheiro, sufocado pela ansiedade de subir ao palco, o rapper acabou dismestificando a ideia de que o sucesso financeiro ou a aclamação do publico são curas automáticas para o sofrimento psíquico.
“A fobia social que me atacou aos 18 anos / Sim, foi nessa época que minha mente se tornou poluída / Às vezes tenho medo de mim mesmo, graças ao ódio por mim mesmo e à depressão que voltou a me visitar.”
— Agust D, “The Last”
Essa reflexão sobre o impacto da fama na saúde mental também se estendeu ao grupo, pois na emblemática Black Swan, do álbum Map of the Soul: 7, do ano de 2020, o BTS explorou o pavor existencial de um artista perder a paixão pela sua arte.
Inspirada na célebre frase da dançarina Martha Graham “Um dançarino morre duas vezes — a primeira morte é quando eles param de dançar, e esta primeira é a mais dolorosa”, a música traduz a ansiedade de sentir que a mente e alma já não respondem da mesma forma.
A forma de expor esses momentos mais sombrios, acabou redefinindo a forma como a saúde mental é abordada no mundo do kpop, ao mesmo tempo que mostram que a depressão e o pânico não escolhem classe social e nem nível de fama.
“Se isso já não ressoa mais em mim / Se não faz mais meu coração disparar / Talvez essa vá ser a minha primeira morte.”
— BTS, “Black Swan”
Se lá nos primeiros anos o foco era expor e validar a dor, o próximo passo dos meninos foi criar mecanismos emocionais para enfrenta-la. O contrário de apenas diagnosticar a exaustão da sua geração, o BTS preferiu assumir a responsábilidade de construir um refugio psicologico e simbólico para seus fãs.
A música que melhor representa essa contrução é Magic Shop, do álbum Love Yourself: Tear, 2018, produzida por Jungkook, a canção foi abertamente inspirada no livro autobiografico A Loja de Magia do neuro ciurgião, James R. Doty, ao qual fala sobre neuroplasticidade, a meditação e a compaixão podem transformar a mente humana diante do trauma.

Na música, o grupo transforma esse conceito psiquiátrico em uma metáfora poética e acessível, convidando o ouvinte a a acessar um local seguro dentro da própria consciência nos dias em que o ambiente externo se torna hostil, os sete integrantes atuam como facilitadores do processo de cura dos próprios fãs, lembrando que a chave para o acolhimento já reside no interior de cada indivíduo.
“Nos dias em que você se odeia, nos dias em que apenas quer desaparecer… vamos construir uma porta no seu coração. Se você abrir essa porta e entrar, este lugar estará esperando por você. Tudo bem acreditar, isso vai te confortar, essa Loja Mágica.”
— BTS, “Magic Shop”
Outro pilar dessa fase é a habilidade do grupo traduzir o isolamento social e o sentimento de não ser ouvido. Na faixa “Whalien 52”, do álbum The Most Beautiful Moment in Life, Pt. 2 de 2015, os meninos usam a história real de baleia dos 52 hertz, um cetáceo que canta em uma frequência única e, por isso, não consegue se comunicar com nenhuma outra baleia do ocean, e abordam aquela sensação de falar e não ser ouvido e principalmente não ser compreendido por amigos, familiares e muitas até a própria sociedade.
Ao transformar dilemas complexos da mente em metáforas compreensíveis e acolhedoras, o BTS provou que a arte não serve apenas para entretenimento, mas como uma ferramenta de suporte emocional.
“Mesmo se eu gritar em solidão, será que esse som que é ignorado chegará a alguém? […] Um sinal infinito que um dia alcançará o outro lado da Terra.”
— BTS, “Whalien 52”
A trajetória do grupo culminou na era Love Yourself, que encerrou a busca por perfeição ao propor um dos aprendizados mais difíceis da saúde mental: aceitar a própria imperfeição.
Na faixa de encerramento desse ciclo, “Answer: Love Myself” do álbum, Love Yourself: Answer, 2018, a música retrata o amor-próprio não como um estado permanente de felicidade, mas como um exercício diário e constante de paciência e perdão diante de erros passados.
“Os seus padrões são mais rígidos para você mesmo […] Vamos nos perdoar agora. Nossa vida é longa, confie em si mesmo quando estiver em um labirinto. Quando o inverno passar, a primavera virá novamente.”
— BTS, “Answer: Love Myself”
Essa mensagem transcendeu os palcos, pois em setembro de 2018, em parceria com a UNICEF para a campanha Love Myself, o BTS levou a conversa sobre saúde mental e identidade à Assembléia Geral da ONU, em Nova York.
No discurso conduzido por Kim Namjoon, a vulnerabilidade foi alçada ao status de voz global.
O impacto do BTS ultrapassa marcas econômicas ou prêmios da indústria, ao escolherem a transparência no lugar da perfeição inalcançável, sete jovens sul-coreanos ajudaram a desmistificar a discussão sobre depressão, ansiedade e pressão social em uma das indústrias mais rígidas do mundo.
Ao transformarem a própria arte em um espaço de diálogo aberto e acolhimento, o grupo provou que demonstrar vulnerabilidade não é um sinal de fraqueza, mas sim o primeiro passo para a cura, eles não apenas quebraram tabus, ofereceram uma linguagem comum para que milhões de pessoas ao redor do globo pudessem, finalmente, encarar a si mesmas com mais compaixão.
Escrito por Bruna Matins
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