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“Chegou a hora de devolver o constrangimento, com arte”: Lucas Tors fala sobre carreira solo, cinema e a desconstrução no EP PECADOR

today8 de outubro de 2026

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Há fronteiras que a gente atravessa no mapa e outras que só a arte nos ajuda a cruzar. Vindo da linha que divide o Brasil do Uruguay, o ator e cantor Lucas Tors aprendeu desde cedo a habitar espaços de transição: entre o teatro e o audiovisual, entre a palavra sussurrada e o silêncio visceral, entre a voz que narra o trauma de um personagem e a autoria que reivindica a própria história.

Das lições de contenção dramática no cinema até a estética provocativa de seu primeiro projeto musical solo, Lucas recusa o lugar do conforto e da conformidade. O artista transforma velhos refúgios de infância em um manifesto de libertação identity: desconstrói estereótipos de masculinidade, questiona convenções de gênero e usa a performance para inverter o olhar do julgamento.

Em entrevista, ele conta sobre como foi canalizar sua energia de improviso para o silêncio do cinema, os bastidores de assumir a autoria de seus próprios traumas, a relação das línguas estrangeiras como proteção na infância e o nascimento do EP solo “PECADOR”. Confira agora na íntegra:

A diretora Rayssa de Castro revelou que escolheu você para o Davi porque, nos exercícios de improviso nas aulas, você costumava interpretar personagens descontrolados ou no limite. Como foi canalizar essa energia explosiva de improvisação para construir um personagem que, na versão final do filme, precisa conter toda essa fúria em silêncio absoluto?

Acho engraçado porque a Rayssa conheceu primeiro justamente o meu lado mais explosivo como ator. Nos exercícios de improviso eu gostava de ir pro limite, de experimentar personagens descontrolados, impulsivos, quase sempre prestes a explodir. E aí ela me dá o Davi, que é exatamente o contrário na forma como se apresenta. Ele está explodindo por dentro, mas quase nunca consegue colocar isso pra fora.

Então eu entendi que não precisava diminuir aquela energia, precisava aprisioná-la. O Davi não é apático, ele sente tudo, talvez até mais do que consegue suportar. Só que tudo fica preso no corpo, no olhar, na respiração. Eu tinha 18 anos quando gravei o filme e era meu primeiro personagem no audiovisual, então aprendi muito ali sobre a diferença entre palco e câmera. A câmera percebe coisas muito pequenas. Às vezes, quanto menos eu tentava demonstrar, mais o Davi dizia. E tem uma ironia que eu adoro, fui escolhido porque a Rayssa me via interpretando pessoas completamente descontroladas e acabei protagonizando um filme inteiro sem dizer uma palavra em cena (risos)

Em DAVI, o público ouve a sua voz narrando em off enquanto seu corpo está em silêncio na tela. Já no longa de terror psicológico Metástase, você assume o papel de criador, produtor e protagonista lidando com traumas e memórias fragmentadas. Como é para você essa alternação entre ser “a voz que narra o trauma” de um personagem e “o autor que assina a própria história”? 

Existe uma diferença muito íntima entre os dois trabalhos. Em DAVI, eu recebi a dor de outra pessoa. Existia um roteiro, uma diretora e um personagem que eu precisava compreender e defender como ator. Eu emprestei meu corpo e minha voz ao Davi. Em Metástase, existe uma inversão. A ideia nasceu inspirada em experiências de um relacionamento abusivo que vivi na adolescência, mas essas experiências foram transformadas em ficção. O Cássio não sou eu, e o filme não é uma reprodução literal da minha história. Acho importante fazer essa separação.

Ao mesmo tempo, existe uma matéria emocional muito próxima de mim ali. Talvez a diferença seja essa, em DAVI eu precisava encontrar o personagem dentro de mim, em Metástase precisei aprender a separar de mim um personagem que nasceu de algo que já esteve dentro. E ser também idealizador e produtor muda tudo. Eu não estou pensando apenas na minha cena, estou pensando na atmosfera, na narrativa, na maneira como uma memória aparece, no que um objeto representa, no limite entre realidade e delírio. Se DAVI me apresentou ao cinema, Metástase é o momento em que começo a dizer ao cinema quem eu sou.

Quais personagens mais te marcaram? E por quê?

Até então, Davi e Cássio, sem dúvida, mas por motivos completamente diferentes. O Davi representa começo. Foi meu primeiro filme, meu primeiro protagonista e meu primeiro contato real com um set de cinema. Eu tinha acabado de sair de Sant’Ana do Livramento e chegar ao Rio de Janeiro. Então, quando lembro dele, não lembro apenas de um personagem. Lembro de um Lucas de 18 anos descobrindo uma cidade, uma profissão e uma vida completamente diferentes.

Já o Cássio, de Metástase, representa autoria. Ele nasce numa fase em que eu já não queria apenas ser escolhido para contar histórias, queria começar a criar as minhas. Acho bonito perceber isso hoje. Um personagem marcou o momento em que entendi que poderia ser ator, o outro marca o momento em que entendi que também poderia ser autor daquilo que eu queria ver na tela.

Você já mencionou que aprendeu inglês no Uruguai e que, quando criança, via os idiomas estrangeiros como um refúgio para se expressar sem sentir o julgamento que enfrentava no Brasil e no Líbano. Como essa memória afetiva e de proteção influenciou na decisão de compor o EP PECADOR inteiramente em espanhol e inglês?

Muito. E eu só fui entender essa relação depois de adulto. Eu cresci na fronteira do Brasil com o Uruguai, então o espanhol nunca foi exatamente uma língua estrangeira pra mim. Era a língua dos rolês, da música, do portunhol, das pessoas atravessando de um lado pro outro. E foi no Uruguai que comecei a aprender inglês. Existe uma memória afetiva muito forte nisso.

No Brasil e no Líbano, em momentos diferentes da minha infância, eu sentia muito o peso do julgamento. Talvez, quando criança, eu tenha encontrado uma saída sem nem perceber. Se eu me expressasse numa língua que poucas pessoas ao meu redor compreendessem completamente, talvez pudesse dizer algumas coisas sem me sentir tão observado. O idioma virou uma espécie de esconderijo.

Hoje aconteceu o contrário. Aquilo que servia para me esconder virou ferramenta pra me revelar. Por isso “pecador” em espanhol e inglês faz tanto sentido pra mim. Não foi uma decisão de mercado, tem memória, fronteira, infância e proteção envolvidas. O espanhol, principalmente, mora em mim de um jeito muito natural. E, além de tudo, acho uma língua extremamente musical e sexy. (risos). Talvez PECADOR seja justamente isso, pegar linguagens que um dia me protegeram do julgamento e usá-las agora para dizer, sem me esconder, exatamente quem eu sou.

Depois de anos dividindo os microfones e os palcos com seu irmão Leonardo Tors no reggaeton, você agora assume sua carreira 100% solo. Como foi a experiência de entrar no estúdio sozinho pela primeira vez para criar esse EP e o que mudou na sua dinâmica de composição sem uma dupla?

No início foi estranho. Eu estava acostumado a ter meu irmão do lado, trocar ideia imediatamente, ouvir uma segunda opinião antes mesmo de terminar uma melodia. Quando entrei sozinho no estúdio pela primeira vez, parecia que estava faltando alguém. Depois percebi que aquele vazio também era espaço. Comecei a experimentar coisas que talvez numa dupla eu pensasse duas vezes antes de propor, não porque o Leonardo me limitasse, muito pelo contrário, ele sempre foi um dos meus maiores incentivadores, mas porque numa dupla você naturalmente pensa em duas identidades.

Sozinho, comecei a me perguntar: “o que EU quero cantar agora?”. Isso mudou bastante a minha relação com a composição. Passei a testar outros ritmos, melodias, maneiras diferentes de usar a voz. O estúdio virou quase um ritual individual de expressão. E o GL Marques teve um papel muito importante nisso, porque soube me provocar artisticamente sem tentar me colocar dentro de uma fórmula. Mas carreira solo não significa ruptura afetiva. Meu irmão continua sendo uma pessoa fundamental pra mim e ainda quero fazer muita música com ele. Hoje eu só consigo diferenciar melhor o que é “nós” e o que é “eu”. E Pecador precisava nascer desse “eu”!

Em uma declaração forte, você disse que “chegou a hora de devolver o constrangimento, com arte” para a sociedade machista. Quando o EP PECADOR estiver no ar e você subir aos palcos com essa nova identidade e performance, qual é a sensação exata que você quer causar na pessoa que tentar te julgar na primeira fileira do show?

Quero que ele se pergunte por que está incomodado. (E talvez o fazer enxergar que sua homofobia é sexualidade reprimida?) hahahah brincadeiras a parte. Ou não… Não quero subir no palco para apontar o dedo pra ninguém e dizer como alguém deve pensar. Quero estar tão seguro e tão confortável comigo mesmo que o julgamento fique constrangedor por conta própria.

Porque durante muitos anos o constrangimento estava em mim. Aos oito anos eu tinha medo da minha família me ver num palco usando legging e lápis preto nos olhos. Depois veio o medo de usar determinadas roupas, de mexer as mãos de determinada maneira, de parecer feminino demais, de ser rotulado, de apanhar. Eu me policiava antes que alguém tivesse a oportunidade de me policiar. Hoje eu penso, por que esse constrangimento precisa continuar comigo? Se alguém estiver na primeira fileira incomodado porque estou de cropped, maquiagem, salto, brinco ou qualquer coisa associada ao feminino, quero que olhe pra mim e, em algum momento, perceba que o problema não está no meu cropped. Está no que o meu cropped desperta nela. Eu vou estar cantando, dançando, trabalhando e me divertindo. Quem está desconfortável já não sou eu.

É isso que significa, pra mim, “devolver o constrangimento, com arte”. Não é vingança, é inverter o olhar. Quero que quem se identifica se sinta mais livre e que quem julga pelo menos se pergunte de onde vem esse incômodo.

Se alguém sair do show pensando “por que aquilo me incomodou tanto?”, a arte já começou a trabalhar.

Olhando para trás, desde os seus 8 anos no Teatro Municipal de Sant’Ana do Livramento até a estreia em projetos audiovisuais, TV, streaming, música, qual foi a virada de chave mais importante na sua maturidade como ator?

Entender que atuar não é atuar. Quando eu era criança, subir no palco estava muito associado a fazer alguma coisa para que as pessoas vissem, projetar a voz, construir um gesto, provocar uma reação. Quando comecei no audiovisual, principalmente com DAVI, descobri o caminho contrário. A câmera me ensinou que muitas vezes o trabalho mais interessante acontece quando você para de tentar mostrar o sentimento e simplesmente deixa o personagem pensar. Com o tempo, televisão, cinema e os outros projetos foram me dando mais técnica, claro, mas acho que minha maior maturidade veio fora do set, vivendo. Hoje tenho memórias que não tinha aos 18, frustrações que não conhecia, amores, términos, medos, conquistas. Fiz psicanálise, comecei a produzir meus próprios projetos e passei a observar mais as pessoas e a mim mesmo. Tudo isso inevitavelmente entra no trabalho.

Acho que amadureci quando parei de pensar “como um ator faria essa cena?” e comecei a pensar “como esse ser humano sobreviveria a esse momento?”. Aos oito anos eu queria que percebessem que eu estava no palco. Hoje, diante da câmera, quero que esqueçam que existe um Lucas ali e acreditem naquela pessoa por alguns minutos.

Escrito por Redação UpdateCharts


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